“A cosmociência dos Guarani, Mbya e Kaiowa e o reconhecimento acadêmico de seus intelectuais”

03/12/2012 19:01

Apresentação

Os estudos sobre os saberes dos povos indígenas constituem-se, hoje, em campo de crescente interesse na universidade, por vários motivos. Em primeiro lugar, suas práticas e visões de mundo podem se tornar nossos aliados neste momento em que a humanidade questiona o atual modelo de desenvolvimento econômico, que aprofunda a desigualdade social, devasta os recursos naturais e compromete irreparavelmente os espaços que habitamos e os modos de viver que eles abrigam. Conhecer os saberes indígenas e aprender com eles tornou-se, portanto, algo decisivo para a sobrevivência das nossas sociedades, em busca da chamada sustentabilidade. Tradicionalmente objetos de atenção da Antropologia, os conhecimentos indígenas, em suas múltiplas manifestações, hoje despertam interesse de áreas  como a Linguística, a Geografia, a História, a Biologia, a Música, a Literatura e várias outras. Em particular, há um feixe de conhecimentos ligados ao xamanismo que envolve domínios tão distintos como a agricultura, os hábitos dos animais, a medicina, a botânica etc.

Igualmente importante é o fato de que a Constituição de 1988 lançou ao país o desafio de construir uma cidadania capaz de incluir, respeitar e preservar as diferenças étnicas e a diversidade cultural. Lembremos que a lei 11.645 de 2008 já indica que o ensino das culturas e histórias indígenas deve ser efetivamente integrado aos currículos escolares. Só o maior conhecimento sobre as culturas indígenas trará o devido, necessário e urgente respeito a esses povos, tão importantes na formação da nossa nacionalidade, mas dela excluídos pela violência e pelo preconceito.

Dentre os povos indígenas do país, os de línguas da família tupi-guarani se destacam  não só pelo número de falantes, mas também por sua ampla distribuição no território. Particularmente, somados, os grupos falantes de guarani do litoral do Sudeste e do Sul (dialetos mbyá e nhandeva) e os do Mato Grosso do Sul (dialetos kaiowá e nhandeva) chegam a mais de 50 mil pessoas, constituindo o maior grupo indígena do país. Os Guarani têm, ainda, outra peculiaridade: estão concentrados no Centro-Sul do país, sendo, provavelmente, o grupo indígena que guarda maior proximidade com nossos maiores centros urbanos. Finalmente, possuem uma trajetória ligada a acontecimentos significativos de nossa história – alguns deles, catastróficos, pela destruição que trouxeram – como  a exploração do Rio da Prata, as missões jesuíticas, a fundação e o crescimento de São Paulo, as bandeiras paulistas, a Guerra do Paraguai, a Marcha para o Oeste, a construção de Itaipu etc.

Segundo as palavras dos próprios Guarani, é a prática do conhecimento dos seus intelectuais, estas figuras eminentes que denominamos “rezadores”, que sustenta e viabiliza a vida desses povos na terra.  Tais especialistas, verdadeiros intelectuais, que assumem funções centrais nestas sociedades, são, a um só tempo, grandes filósofos, historiadores, curadores e mantenedores do equilíbrio social, cosmológico e ambiental dentro de seus grupos.

11 e 12 de dezembro, em Belo Horizonte.

LOCAL: UFMG – Conservatório  (Avenida Afonso Pena, 1534, Centro. Belo Horizonte-MG)

Programação

11/12

10h: Abertura

Cerimônia realizada pelos especialistas Guarani, Mbya e Kaiowa.

Palavras de acolhimento e abertura do seminário:

José Carlos Levinho, Museu do Índio-Funai | Efigênia Ferreira e Ferreira, Reitoria da UFMG | Ana Gita de Oliveira, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional-IPHAN | Deborah Lima, Departamento de Sociologia e Antropologia da UFMG | Nádia Heusi Silveira, FUNAI | César Guimarães, Festival de Inverno da UFMG | Tonico Benites, Aty Guasu, PPGAS Museu Nacional UFRJ, Dourados, MS.

14h: Ñande ypy. Origem do mundo.

Ñande ypy é um conceito guarani que inclui a origem dos seres e todas as coisas. Todos os suportes e estruturas do mundo são vinculados a estas origens.

Palestrantes Guarani, Mbya e Kaiowá:

Atanásio Teixeira, aldeia Limão-Verde, Amambai, MS | Pedro Gonçalves Tapari, aldeia Arroio Kora, Paranhos, MS | Salvadora Chamorro, aldeia Ypo’i, Paranhos, MS | Leonel Lopes, aldeia Kurusu Amba, Coronel Sapucaia, MS |

Talcira Gomes, aldeia Itapuã, Viamão, RS

Mediação: Deise Lucy Montardo (UFAM e Instituto Brasil Plural)

20h: Tava, a casa de pedra. Filme de Ariel Ortega, Ernesto de Carvalho, Patricia Ferreira, Vincent Carelli, Pernambuco, 2012, 78′.

Apresentação de Ariel Ortega e Patrícia Ferreira, aldeia Koenju, RS

12/12

9h: Ore ava reko ore rekoha. Nosso modo de ser e de viver no tempo-espaço.

Os comportamentos são para os povos guarani, kaiowa  e mbya, modos de existência indispensáveis, que significam estar em boa relação com os seres visíveis e invisíveis. Garantir a existência harmoniosa e equilibrada no tempo-espaço é o trabalho constante dos seus xamãs e intelectuais.

 

Palestrantes Guarani, Mbya e Kaiowá:

Getulio Juca, aldeia Jaguapiru, Dourados, MS | Alda Silva, aldeia Jaguapiru, Dourados, MS |Rosalino Ortiz, aldeia Yvy Katu, Japorã, MS | Valério Vera Gonçalves, aldeia Panambi, Douradina, MS |Ângela Lopez Ramirez , aldeia Koenju, RS

Mediação: Nádia Heusi Silveira

14h: Ore Aty Guasu, jeroky, tekorã. Palavras de ação.

A recepção, a transmissão e o consenso das palavras orientam as ações. Estar na terra e lutar pela terra é uma forma de ser solidário a ela, pois ela está sofrendo, assim como as pessoas. É uma forma de ajuda mútua, de reciprocidade com ypy. Com que tipos de atos e instrumentos é possível fazer este trabalho cotidiano que pertence aos intelectuais, xamãs e pensadores indígenas?

Palestrantes Guarani, Mbya e Kaiowá:
Eliseu Lopes, aldeia Kurusu Amba, Coronel Sapucaia, MS | Atanásio Teixeira, aldeia Limão-Verde, Amambai, MS | Jorge Oliveira Gonçalves, aldeia Potrero Guasu, Paranhos, MS | Pedro Gonçalves Tapari, aldeia Arroio Kora, Paranhos, MS | Alcindo Wera Moreira aldeia M’Biguaçu, Florianópolis, SC

 

Mediação: Luciane Ouriques Ferrara

18h: Encerramento: Homenagem póstuma aos intelectuais Guarani, Mbya e Kaiowa

Oradores:

Dionisio Gonçalves, aldeia Arroio Kora, Paranhos, MS | Fernando Gonçalves, aldeia Ypo’i, Paranhos, MS | Lide Solano Lopes, aldeia Pyelito Kue, Iguatemi, MS | Valmir Gonçalves Cabreira, aldeia Guaiviry, Ponta Porã, MS |Crecencia Flores, aldeia Guaiviry, Ponta Porã, MS

Intelectuais e líderes políticos homenageados

Marçal de Souza Tupã’i | Pancho Romero | Samuel Martins |Marcos Veron | Dorvalino Rocha | Dorival Benites | Xurite Lopes | Ortiz Lopes | Rolindo Vera | Genivaldo Vera | Nísio Gomes | Osmair Fernandes | José Barbosa de Almeida (Zezinho) | Rosalino Solano Lopes | Eduardo Pires | Paulito Aquino | Delosanto Centurion | Lázaro Morel | Lauro Concianza  | Teodoro Ricarde | Amilton Lopes  | Osvaldo Lopes | Adelio Rodrigues | Francisco Benites Romeiro | Rosalino Ximenes | Tomazia Vargas | Dom Quitito Vilhalva | Mario Vera  | Mario Turiba | Ilario CarioFelix Pires

 

Tradutores: Tonico Benites, Dourados, Museu Nacional, UFRJ | Izaque João, aldeia Panambi, Douradina, MS | Oriel Benites, aldeia Limão Verde, Amambai, MS | Genito Gomes, aldeia Guaiviry, Ponta Porã, MS | Geraldo Moreira, aldeia M’Biguaçu, SC | Vherá Poty Benites, aldeia Itapuã, Viamão, RS

 

Participantes

Convidados rezadores ñanderu Guarani, Mbya e Kaiowa e pesquisadores indígenas de Mato Grosso do Sul, Santa Catarina e Rio Grande do Sul

Tonico Benites, antropólogo, UFRJ, Museu Nacional, Dourados, MS

Atanásio Teixeira, aldeia Limão-Verde, Amambai, MS

Jorge Oliveira Gonçalves, aldeia Potrero Guasu, Paranhos, MS

Pedro Gonçalves Tapari, aldeia Arroio Kora, Paranhos, MS

Dionisio Gonçalves, aldeia Arroio Kora, Paranhos, MS

Salvadora Chamorro, aldeia Ypo’i, Paranhos, MS

Fernando Gonçalves, aldeia Ypo’i, Paranhos, MS

Lide Solano Lopes, aldeia Pyelito Kue, Iguatemi, MS

Leonel Lopes, aldeia Kurusu Amba, Coronel Sapucaia, MS

Getulio Juca, aldeia Jaguapiru, Dourados, MS

Alda Silva, aldeia Jaguapiru, Dourados, MS
Valmir Gonçalves Cabreira, aldeia Guaiviry, Ponta Porã, MS

Crecencia Flores, aldeia Guaiviry, Ponta Porã, MS
Genito Gomes, aldeia Guaiviry, Ponta Porã, MS
Izaque João, aldeia Panambi, Douradina, MS

Karlene Pires, Dourados, MS
Eliseu Lopes, aldeia Kurusu Amba, Coronel Sapucaia, MS

Rosalino Ortiz , aldeia Yvy Katu, Japorã, MS

Valério Vera Gonçalves, aldeia Panambi, Douradina, MS

Oriel Benites, aldeia Limão Verde, Amambai, MS

Vherá Poty Benites, aldeia Itapuã, Viamão, RS

Talcira Gomes, aldeia Itapuã, Viamão, RS

Ariel Ortega, aldeia Koenju, RS

Patrícia Ferreira, aldeia Koenju, RS

Ângela Lopez Ramirez , aldeia Koenju, RS

Geraldo Moreira, aldeia M’Biguaçu, SC

Rosa Mariani Cavalheiro, aldeia M’Biguaçu, SC

Alcindo Wera Moreira Aldeia M’Biguaçu, Florianópolis, SC

Realização

Museu do Ìndio-Funai e UFMG

e

Festival de Inverno da UFMG

Departamento de Antropologia-UFMG

Departamento de Educação e Escola de Música-UFMG

Diretoria de Ação Cultural-UFMG

Faculdade de Educação-UFMG

INCT Brasil Plural-CNPq

INCT de Inclusão no Ensino Superior e na Pesquisa-CNPq

Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional-UFRJ

Programa de Pós-Graduação em Comunicação-UFMG

 

Comissão Organizadora

Tonico Benites, PPGAS, Museu Nacional, UFRJ

Rosângela Pereira de Tugny, Escola de Música da UFMG,

César Guimarães, Festival de Inverno, Fafich, UFMG

Luciana Oliveira, Festival de Inverno, Fafich, UFMG

Alexander Noronha, Museu do Índio, Funai

André Brasil, Fafich, UFMG

Equipe de apoio: Bernard Belisário (PPGCOM-UFMG), Verônica Gomes (DAC), Arthur Cornélio (Escola de Música-UFMG), Sofia Cupertino (DCS-UFMG), Pedro Marques (Direito-UFMG) e Érico Machado (Direito-UFMG), Roberto Romero (Antropologia-UFMG), Poliane Janine (Direito-UFMG), Bárbara Viggiano (Escola de Música-UFMG), Pedro Andrade  (Comissão de direitos humanos da OAB), Hanna Serrat (DCS – UFMG), Leonardo Ruas (DCS – UFMG), Gabriela Fonseca (DCS-UFMG)