Fotografias de objetos Ticuna da coleção etnográfica de Spix e Martius chega ao Museu Magüta, o museu do Povo Ticuna

10/09/2019 11:55

Em meados de julho de 2019, Silvana Teixeira, doutoranda do PPGAS/UFAM, sob orientação da Profa. Dra. Deise Lucy O. Montardo, pesquisadora do Instituto Brasil Plural e do grupo de pesquisa Maraca, retorna ao Museu Magüta, o museu do Povo Ticuna, na cidade de Benjamin Constant, para compartilhar com os indígenas deste museu os resultados de sua pesquisa sobre objetos Ticuna realizada na Coleção Spix & Martius, do Museum Fünf Kontinente – MFK, de Munique, e em outros museus da Europa. O levantamento dos objetos aconteceu durante o seu doutorado-sanduíche, na Ludwig-Maximilian Universität – LMU, em Munique, Alemanha, no período de março de 2018 a junho de 2019, sob orientação do Prof. Dr. Wolfgang Kapfhammer. O trabalho de pesquisa desenvolvido no Museum Fünf Kontinente propiciou o acesso a essas peças e trouxe à luz o conhecimento sobre os objetos coletados nas comunidades indígenas Ticunas há 200 (duzentos) anos.
No ano de 1817, Maria Leopoldina, arquiduquesa da Áustria, muda-se para o Brasil por ocasião das núpcias contraídas com D. Pedro de Alcântara, que mais tarde se tornaria o primeiro imperador do Brasil. Acompanhava Leopoldina uma expedição científica composta por ilustres estudiosos do reino da Áustria, como o taxidermista Johann Natterer responsável pelo setor de zoologia. Do reino da Baviera foram enviados pelo rei Maximilian José, os zoólogos e médicos de formação Johann Baptist von Spix e Carl Friedrich Phillip von Martius. Nos anos de 1817 a 1820, Spix e Martius empreenderam viagem pelo interior do Brasil coletando amostras e reunindo informações sobre a fauna, flora, o clima, os povos nativos, os minérios e tudo o que considerassem relevante para os estudos científicos e de viabilidade econômica para a época. Em 1819, Spix e Martius chegam a Belém no Pará e, de lá, partem em viagem pelo Rio Amazonas. Enquanto Martius, uma vez na região de Tefé, decidiu navegar pelo rio Japurá, Spix seguiu viagem pelo Solimões, no dia 7 de dezembro de 1819, e chegou a Tabatinga a 9 de janeiro de 1820. Retornou à região de Manaus em 3 de fevereiro desse mesmo ano. Spix esteve na região de São Paulo de Olivença, onde coletou máscaras e outros objetos utilizados no ritual da “moça nova”, o rito de iniciação feminina que ainda hoje segue sendo realizado pelo Povo Ticuna.As máscaras coletadas por Spix entre os Ticuna e as máscaras adquiridas com os Juri-Taboca no Rio Japurá, por Martius, possuíam grandes semelhanças e passaram para a história em uma litogravura na qual participavam juntas de um ritual dos Ticuna. A coleção Spix e Martius de objetos dessas etnias conta com 92 peças, sendo 58 ainda existentes e 34 apenas constando em catálogo. Das 58 peças existentes, verificamos 45, sendo 23 da etnia Ticuna e 22 dos Juri-Taboca.
Uma publicização contextualizada foi a escolha para compartilhar com os indígenas no Museu Magüta as informações do que existe sobre os mais antigos objetos Ticuna e onde estes objetos estão localizados. O intuito é que os indígenas se apropriem dessas informações para uso em suas próprias pesquisas. Utilizamos a fotografia como um meio de aproximação dos objetos que estão nos museus etnológicos. Anka Krämer, responsável pelo arquivo de fotografias do Museu Fünf Kontinente, doou um conjunto de 20 fotografias impressas em alta qualidade para que pudessem ser expostas no Museu Magüta. Além destas, foram doadas 40 fotografias dos arquivos do MFK e informações sobre os acervos, bem como fornecido o contato dos curadores dos museus que fizeram parte desta pesquisa.
A apresentação das fotografias em Benjamin Constant, em julho último, movimentou a comunidade indígena Ticuna e a demanda por informações foi tão intensa que o Museu Magüta preparou uma pequena exposição com as fotografias e promoveu duas Rodas de Conversa entituladas, objetos Ticuna em museus etnológicos da Europa. Nessas conversas, foram apresentadas à comunidade indígena Ticuna informações sobre os objetos expostos nas fotografias. A primeira Roda de Conversa foi para convidados da diretoria do Museu e a segunda, para os professores da escola indígena da Comunidade
de Filadélfia. À convite da Prof. Msc. Maria Francisca Nunes de Souza, do Instituto Natureza e Cultura da Universidade Federal do Amazonas INC/UFAM, fizemos uma terceira roda de conversa com o título Projetos de colaboração, museus e comunidades de Povos originários, para 43 alunos dos cursos de Artes Visuais e de Pedagogia (Programa PARFOR) compostos em maioria por alunos indígenas, visando difundir as possibilidades de pesquisa que esse material pode oferecer.
As pesquisas realizadas nos acervos dos museus etnológicos de Munique, Berlim, Viena e Basel só foram possíveis devido à mediação realizada pelo Prof. Dr. Wolfgang Kapfhammer, idealizador do convênio firmado entre o Instituto de Etnologia da LudwigMaximiliam Universität – LMU, em Munique, Alemanha, e o Programa de PósGraduação em Antropologia Social – PPGAS/UFAM.


Montagem das fotografias por artesãs ticuna