As barreiras da academia e do Estado em debate na saúde indígena

06/06/2026 12:37

Professoras Jean Langdon, Eliana Diehl, Inara do Nascimento Tavares e Luiza Garnelo participaram de evento do NESSI e do IBP sobre saúde indígena na UFSC.

Diferentes experiências da saúde indígena nas universidades brasileiras foram tema de debate na Univesidade Federal de Santa Catarina, na manhã desta quarta-feira, 3 de junho. Organizada pelo Núcleo de Saberes e Saúde Indígena (NESSI) e pelo INCT Brasil Plural, a mesa redonda “Saúde Indígena no Brasil: experiências e perspectivas” foi mediada pela professora Esther Jean Langdon, coordenadora emérita do IBP, e um dos principais nomes dos estudos da saúde indígena no Brasil. As falas ressaltaram a história da consolidação dessa área como campo de estudos no Brasil e os desafios impostos na formação de profissionais indígenas no ensino superior.

A professora Eliana Diehl, pesquisadora do NESSI e do IBP, contou um pouco da trajetória da saúde indígena no Brasil, desde os anos 1990, destacando a própria criação do NESSI na UFSC, mas também uma série de eventos que foram consolidando esse campo de pesquisa, unindo pesquisadores da Fiocruz, da Unifesp e da UFSC. Estes encontros fazem parte hoje dos principais congressos de associações como a ABA (Associação Brasileira de Antropologia) e a Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva). Eliana destacou que, nessa história, o protagonismo dos povos indígenas se deu numa crescente, ganhando força maior com as políticas de ação afirmativa que fomentaram a participação indígena nas universidades e a presença deles nos campos da antropologia e da saúde coletiva.

Já a professora Luiza Garnelo, da Fiocruz de Manaus, trouxe os desafios do campo da Saúde Coletiva, na formação de pesquisadores de origem indígena, no Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Condições de Vida e Situações de Saúde na Amazônia (PPGVIDA). Ela destacou a dificuldade de formar turmas com alunos indígenas, por questões como a exclusão digital – falta de condições para aulas não presenciais e de estudos em plataformas digitais – e a burocracia, que permitiria o acesso e a permanência desses estudantes. Há dificuldades como excesso de documentos exigidos para uma bolsa ou ainda a impossibilidade de se ter um CEP (código de endereçamento postal) para fazer o cadastro no sistema.

Além disso, a professora Luiza relatou experiências que podem fazer das universidades um local hostil para os estudantes indígenas, em vez de acolhedor. São muitas as situações de racismo e discriminação vivenciadas pelos estudantes indígenas. Há também questões que marcam o próprio campo científico e universitário como a individualização de problemas e situações que contrasta com o coletivismo dos indígenas. Essa abordagem chega a criar dificuldades para estudantes que se deslocam com a família para a cidade. E também há conflitos de ordem científica, uma vez que o naturalismo da ciência é objetificador e desconsidera as ontologias indígenas, ou seja, outras possibilidades de se pensar a materialidade do mundo. A professora Luiza destaca também que o pensamento científico tende a uma abstração que se distancia da concretude dos problemas locais que mobilizam muitos indígenas a estarem nas universidades.

Partindo também de uma experiência no campo da Saúde Coletiva, a professora Inara do Nascimento Tavares, de origem Sateré-mawé, do Instituto Insikiran de Formação Superior Indígena, da Universidade Federal de Roraima (UFRR), trouxe as experiências da formação de sanitaristas indígenas. No Instituto Insikiran são oferecidos três cursos superiores para populações indígenas: Licenciatura Intercultural Indígena, Gestão Territorial Indígena e Gestão em Saúde Coletiva Indígena. Como professora da Saúde Coletiva, Inara ressaltou os conflitos de uma estrutura acadêmica universitária que até pouco tempo não estava preparada para receber esses estudantes. E, depois de passarem pela universidade, vêm as dificuldades de encontrar trabalho, pois também a gestão dos serviços de saúde não se coloca de forma tão aberta.

Inara conta que a situação tem mudado, ainda que lentamente, como recentemente na emergência sanitária com os Yanomami, em Roraima, em que participaram egressos da Saúde Coletiva Indígena. Ainda assim, há muitas barreiras e angústias, pois mesmo quando conseguem se integrar profissionalmente nos distritos sanitários indígenas, esses profissionais vivem pressões que vêm das aldeias, que esperam deles a solução dos problemas mais urgentes. As questões também vêm dos próprios serviços de saúde, quando um caminho de entraves burocráticos transforma em complexa qualquer ação simples, como uma compra, um relatório, um projeto de financiamento. Ainda assim, a avaliação é de que hoje esses gestores e pensadores indígenas estão tensionando não apenas a academia, mas também o Estado, na construção desse lugar de atuação.