Práticas nos engenhos de farinha de SC são consideradas patrimônio nacional

O Iphan reconheceu como Patrimônio Cultural do Brasil o bem cultural Saberes e Práticas Tradicionais Associados aos Engenhos de Farinha de Mandioca de Santa Catarina. O reconhecimento foi aprovado durante a 112ª reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, do Iphan, realizada no dia 11 de março, no Rio de Janeiro. O dossiê que fundamentou o registro das práticas nos engenhos de farina foi feito pela equipe do NAUI – Núcleo de Dinâmicas Urbanas e Patrimônio Cultural (PPGAS, UFSC), que é parte das redes do INCT Brasil Plural.
Os pesquisadores do NAUI acompanharam detentores de saberes relacionados às práticas de engenhos de farinha pelo período de 3 anos e produziram um dossiê sobre a atividade registrada em diversos municípios do litoral catarinense. A pesquisa abrangeu comunidades indígenas guaranis (Guarani Mbya), quilombolas e descendentes de açorianos e alemães. Desse levantamento e das conversas realizadas com os participantes, resultou em uma produção audiovisual que embasou o dossiê e o processo de registro. Foi produzido o documentário “Farinhar”, nas versões média e curta-metragem, além de um vasto material fotográfico. O curta-metragem, com 17 minutos, pode ser visto aqui. As produções foram feitas para o NAUI e para o Iphan pela produtora Rancho Cultural, com direção de Artur Hugo da Rosa, documentarista e pesquisador NAUI, e da cineasta Carolina Maciel de Arruda.
A coordenadora da pesquisa sobre os engenhos, Alicia Castells, lembra que o reconhecimento nacional atribuído às práticas e saberes tradicionais das comunidades litorâneas de Santa Catarina é fruto de “uma árdua luta, de trabalho, resistência e desejo vivo dos detentores desses saberes”. A professora destaca a conversa que os pesquisadores tiveram com Seu Licio, que é detentor desse saber e dono de um engenho de farinha que montou em Ratones, Florianópolis. Adalicio Vitor da Silva, o Seu Lício, mandou um recado à sociedade brasileira durante a entrevista em seu engenho de farinha: “Vamos dar uma força pra nós, Brasil. Pra não acabar com a tradição do engenho de farinha. Pro pessoal se unir”. Emocionado, Lício conclui: “porque o meu sonho era isso. O fim da minha vida tinha que ser um engenho e não tem um dia que eu não meto esses meus pés aqui”.

Professora Alícia Castells, coordenadora da pesquisa, fala durante a reunião do Conselho Consultivo do Iphan em 11 de março.
Mas o que o registro como patrimônio imaterial proporciona aos detentores desses saberes? Eles ganham visibilidade política e reconhecimento do saber que já é tradicional e que muitas vezes está em ameaça de acabar por falta de visibilidade na sociedade. O registro do Iphan no Livro dos Saberes, como bem imaterial nacional, oferece a proteção do reconhecimento e também estabelece a criação de um plano de salvaguarda, resultando em uma série de procedimentos para que esse bem seja protegido.
A professora também explica que não significa que a conquista do registro como patrimônio nacional assegure continuidade da prática. “O desafio dessa luta, agora, é dar seguimento aos critérios de salvaguarda”, afirma a professora Alícia. “Contemplar os desafios e inciativas elencadas pelos próprios detentores do bem cultural sinalizados no dossiê, como por exemplo, a criação de escolas temáticas dos mestres e mestras de engenho; escola da terra para educação rural; e escola da gastronomia dos engenhos de farinha”.
Após o processo de aprovação do bem cultural como patrimônio imaterial nacional há recomendações, indicadas pelo próprio dossiê de pesquisa, que indica o que deve ser feito para salvaguardar as práticas. No caso dos engenhos de farinha, há a recomendação de realizar novas pesquisas, mapeamentos e inventários participativos que contemplem territórios e engenhos não abrangidos na pesquisa já realizada nesta etapa. “O objetivo é estender a compreensão do bem e fomentar a mobilização social de mais sujeitos em torno da salvaguarda”, conclui a professora. A cada 10 anos o Iphan precisa realizar novo levantamento para averiguar a continuidade da prática que foi reconhecida como patrimônio imaterial.

As imagens dos engenhos fazem parte da pesquisa realizada pelo NAUI e foram produzidas para o Iphan pelo Rancho Cultural.



