Evento da UFSC debate ação política dos povos indígenas

“Diplomacias Ameríndias no Brasil Meridional” é o evento que será realizado nos dias 19 e 22 de junho na UFSC pelo Laboratório de Estudos em Etnologia, Educação e Sociobiodiversidades (ARANDU/NEPI), Laboratório de Antropologia, Etnografia e suas Variações e INCT Brasil Plural (IBP). O primeiro dia do evento reúne pesquisadores em rodas de conversa e palestra e no segundo dia acontece a defesa de dissertação da antropóloga indígena Xokleng, Débora Laã Priprá. O seminário propõe explorar o caráter profundamente ativo e reflexivo da ação política dos povos Kaingang, Laklaño/Xokleng e Guarani (Mbyá, Avá e Kaiowá), cujas trajetórias transbordam a mera resistência institucional.
“A nossa proposta é discutir a ação política indígena. Quando a gente pensa em política, a gente pensa em Estado e em partido político. E o nosso seminário procura discutir a política em outros termos. Deslocar um pouco da discussão de Estado e partido”, explica a coordenadora do evento, Antonella Tassinari (UFSC/IBP). “O evento está debatendo a ação política em termos que são propriamente indígenas. Então estamos falando também de ritual, corporalidade, educação, que geralmente não são consideradas ações políticas. Estamos pensando em estratégias de autonomia dos povos indígenas”.
O objetivo da atividade é mapear as estratégias e alianças vitais que garantem a autonomia e o bem-viver desses povos frente às persistentes ameaças coloniais e territoriais que os cercam. “Sob a ótica das Diplomacias Ameríndias e da Cosmopolítica, o que se pretende debater são estratégias e alternativas que os coletivos articulam, como as redes de parentesco, o manejo do território e a diplomacia xamânica como relações de negociação com o Estado e com a alteridade (humana e não-humana)”, explica Diógenes Cariaga, professor da Universidade Estadual do Mato Grosso (UEMS) e também coordenador do evento e um dos palestrantes. A professora Antonella Tassinari (PPGAS/UFSC), organiza o evento junto com o professor Diógenes Cariaga, (UEMS/PPGAnt/UFGD). Ambos são pesquisadores do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Brasil Plural (IBP), que é um INCT em Antropologia e tem sede na UFSC.
“Se a célebre premissa da ‘sociedade contra o Estado’, de Pierre Clastres, iluminou a recusa à centralização do poder coercitivo como eixo da ação indígena, as etnografias mais recentes sobre o Brasil Meridional nos convidam a alargar esse horizonte”, complementa a professora Antonella. O evento acontece na próxima sexta (19) e segunda (22), com rodas de conversa e palestras com convidados, que serão realizados na Sala Silvio Coelho dos Santos (110 – Bloco B) do Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFH) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).
Defesa de dissertação de pesquisadora indígena Xokleng
Com o título “A intervenção do Estado e a transformação das lideranças Xokleng: história, território e resistência”, a dissertação de Débora Laã Priprá discute as mudanças nas formas de lideranças indígenas entre os Xokleng. Ela discute que, antes do contato, não havia a ideia de um líder, um chefe. As lideranças eram familiares e as formas de decisão também eram no âmbito da discussão familiar. Então ela mostra como a relação com o Estado é que cria essa dinâmica de chefias, que existe agora e que vai mudando como vai sendo eleito o chefe. Débora Laã Priprá uma antropóloga indígena Xokleng. A banca examinadora conta ainda com a presença da professora Antonella Tassinari, que é orientadora da pesquisa, e com os professores Edviges Ioris e Professor Diógenes Cariaga; e com a professora Joziléia Kaingang, que também é uma pesquisadora indígena.

Programação do evento Diplomacias Ameríndias no Brasil Meridional
Sala 110 – Bloco B – CFH
Dia 19 de junho – sexta-feira
13h30 – RODA DE CONVERSA
A ação política ameríndia no Brasil Meridional: pesquisas em andamento no PPGAS/UFSC.
Alexsander Brandão: “É possível transformar a soja novamente”: a reconstrução do território Tekoha Guasu Guavira por meio do movimento de retomada territorial do povo Ava Guarani.
Ana Maria Ramo y Affonso: “Interculturalidades alterantes e seus possíveis”.
Celita Antunes: “Araguydje, um olhar feminino sobre as quatro cerimônias Guarani e a busca pelo novo tempo”.
Bruna Yoyapyrê da Silva: Kunhangue’i oguapy’i regua’i: cuidados na primeira menstruação.
16h – CONTRAPONTOS AMAZÔNICOS
Paulo Roberto Ferreira: “Ação Política Huni-Kuin: articulando xamanismo, escolarização e patrimonialização”.
Rivelino Barreto: “A política do bem-viver indígena: o que pensam, o que pensamos”.
17h – PALESTRA
Diógenes E. Cariaga – Mundéu/UEMS/CNPq – PPGAnt/UFGD, pesquisador do INCT Brasil Plural – Regimes da “Não-Troca”: financeirização da natureza e da terra nos territórios Kaiowá (Guarani).
Nas últimas décadas, o avanço de commodities agrícolas nas bacias dos rios Dourados e Amambai impactou profundamente os modos Kaiowá de existência, agravando a espoliação iniciada no século XX, quando o Estado alienou suas terras tradicionais como devolutas. Após ciclos de extrativismo e pecuária que exploravam a mão de obra indígena nas fazendas sobrepostas ao território de habitação tradicional – tekoha, desmatamento, seguido pela mecanização da agricultura, forçaram as famílias ao confinamento nas reservas do SPI. As disputas fundiárias subsequentes asfixiaram suas redes de troca, produção e circulação econômica, gerando severa vulnerabilidade alimentar. O foco desta comunicação é provocar o debate sobre o conceito etnográfico da recusa ameríndia, destacando a potência relacional das ontologias ameríndias frente às imposições e temporalidades modernas.
Dia 22 de junho – segunda-feira
14h30 – Banca de defesa de dissertação de mestrado de Débora Laã Priprá
Título: “A intervenção do Estado e a transformação das lideranças Xokleng: história, território e resistência”
Banca examinadora:
Professora Antonella Tassinari – orientadora (UFSC).
Professora Edviges Ioris (UFSC)
Professora Joziléia Kaingang (UFSC)
Professor Diógenes Cariaga (UEMS)
Suplentes: Professores Rivelino Barreto (UFSC) e Flávio Wiik (UEL)



