Por Igor Luiz Rodrigues da Silva[1]

Mobilização e dia Nacional em defesa do “Velho Chico”. Imagem de Igor Luiz Rodrigues, 03 de junho de 2019, Pão de Açúcar, AL.
No último dia 03 de junho, dois dias antes do dia mundial do meio ambiente, é o dia Nacional de defesa do Rio São Francisco, o rio da integração nacional por percorrer cinco estados, desde a sua nascente em Minas Gerais, passando por Bahia e Pernambuco, até desaguar no oceano, entre os estados de Alagoas e Sergipe. Sua bacia hidrográfica abrange uma área de 640 mil km, percorrendo sete estados e atingindo, 521 municípios em seus mais de 2863 km.
As populações indígenas, em suas diferentes etnias que habitavam suas margens, antes dos contínuos processos de colonização portuguesa, holandesa e francesa, especialmente na região do baixo São Francisco, entre Alagoas e Sergipe, chamavam o rio de “Opará”, que na língua do tronco Tupi-Guarani, significa “rio-mar”. Outras palavras de origem indígena dão nome a muitas cidades e vilas que se situam nas margens, revelando as contribuições dos povos originários para a formação e desenvolvimento destas e de sua gente.
Passados mais de 500 anos, desde a chegada dos primeiros invasores e exploradores das águas do rio São Francisco, é possível encontrar ainda hoje, algumas poucas comunidades indígenas espalhadas ao longo de todo o rio, bem como centenas de comunidades tradicionais (quilombolas, agricultores, artesãos, pescadores, comunidades ribeirinhas, etc), que produzem seus próprios sistemas de interação e proteção ao “Velho Chico”.

Vista das margens do Rio São Francisco, entre Alagoas e Sergipe.
Para essas populações, o rio é destino, é inspiração, é que salva e mata a sede e fome do povo sertanejo, mas é também carregado de magia, de lendas, de fé, com suas múltiplas e diversas paisagens, da mata atlântica, a caatinga, do cerrado a matas ciliares, como mangues e vegetação litorânea das áreas de transição no baixo São Francisco.
Desde o período colonial, o “Opará” (para utilizar a referência dos povos indígenas), é alvo de projetos de desenvolvimento, toda a sua extensão foi alvo de mapeamento já nos primeiros anos após a sua descoberta, séculos mais tarde, seria percorrido da foz até as famosa cachoeira de Paulo Afonso pelo então Imperador do Brasil, D. Pedro II, que anos anteriores teria mandando elaborar um projeto de transposição das águas do rio.
Hoje, temos uma obra de transposição já finalizada, levando água para outros estados, como Cerará, Paraíba e Rio Grande do Norte. No entanto, desde o inicio do século XX, há cinco usinas hidroelétricas operando na geração de energia (Três Marias- MG); Sobradinho (BA/ PE), Itaparica (PE); Paulo Afonso (BA) e Xingó (AL/ SE), bem como outros projetos desenvolvimentistas de irrigação, de distribuição de água nos estados, de produção agroindustrial, que contribuem para o desenvolvimento socioeconômico da região da bacia hidrográfica, ao mesmo tempo que tem provocado rupturas e desequilíbrios ambientais severos, baixa vazão, desaparecimento de espécies de peixes e crustáceos, assoreamento, erosões, proliferação de macrofitas aquáticas, contaminação e poluição das águas e mananciais a partir de agrotóxicos, salinização e reconfiguração nas paisagens e relações socioculturais.

Corrida de botes durante a festa de Bom Jesus dos Navegantes, em Pão de Açúcar- AL.
O dia 03 de junho, portanto, é o dia de conscientização e luta em defesa da vida do “Velho Chico”, através de uma campanha intitulada “#VireCarrancaparadefenderoVelhoChico”, a CBHSF (Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco), tem tornado público e ampliado, as graves crises e recorrentes problemas enfrentados pelas populações ribeirinhas e pelo rio ao longo dos anos. A campanha, convida as comunidades ribeirinhas, seus gestores e sociedade civil organizada, na permanente defesa e conscientização da preservação do maior rio inteiramente brasileiro.
Todos os anos, há extensas mobilizações em cidades ribeirinhas, com palestras, audiências públicas, atividades culturais, esportivas, educacionais, durante todo o mês de junho, provocando discussões e a elaboração de projetos que incentivem a redução dos danos causados ao rio, ao “meio ambiente” e as vidas humanas e não-humanas que habitam o grande rio.

Lavadeira do São Francisco em Pão de Açúcar, Alagoas.
O INCT Brasil Plural, chega nas margens do “Velho Chico”, mais especificamente na região do baixo São Francisco, entre os estados de Alagoas e Sergipe, através da pesquisa: “Há um Rio que Navega em Mim:Ontologias sobre (o viver) do (no) Opará (Rio-Mar), e seus múltiplos sentidos, práticas, paisagens e caminhos”[2]. O projeto tem como objetivo, em linhas gerais, narrar, descrever a partir de analises e métodos teóricos propostas por Tim Ingold (2012; 2015); Eduardo Konh (2013); Anna Tsing (2005; 2012; 2015 e 2019); Annemarie Mol (2002); Marilyn Strathern (2014), entre outros, as modificações de paisagens, as interações, habilidades e práticas, relações humanas e não-humanas que estão emergindo e produzindo novas trajetórias, de forma mais aceleradas nos últimos anos, nessa região.
A pesquisa foi concluída agora em março deste ano e está em fase de escrita e defesa da tese. É importante salientar, que a pesquisa está foi desenvolvida a partir da própria trajetória de vida do pesquisador, que nasceu e cresceu as margens do rio, e que tem sua linhagem familiar ancorada nas tradições da pesca e navegação ao longo de todo o baixo São Francisco.
[1] Doutorando em Antropologia Social pelo PPGAS- UFSC; bolsista CAPES, estudante pesquisador e colaborador do INCT Brasil Plural e membro do Coletivo CANOA/PPGAS- UFSC.
[2] Já existem alguns artigos apresentados em anais de congressos (REACT, 2019; Revista Tessituras 2019), além de imagens na rede social instagram (@antropologia_do_velhochico), como forma de produzir diálogos com a população ribeirinha.