Pesca com botos agora é considerado patrimônio imaterial nacional pelo Iphan

No dia 11 de março de 2026, a Pesca com Botos no Sul do Brasil foi registrada no Livro dos Saberes como bem imaterial nacional. O registro ocorreu após a aprovação da 112ª Reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, reconhecendo os pescadores artesanais que pescam com botos no Sul do Brasil como detentores de um conhecimento singular e histórico. A decisão também determina que a pesca com botos deve ser protegida de acordo com as indicações do Termo de Referência para a Salvaguarda de Bens Registrados pelo Iphan. A pesquisa que embasou a decisão do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional foi realizada por pesquisadores do CANOA – Coletivo de Estudos com Ambientes, Percepções e Práticas (PPGAS/UFSC), que integram as redes do INCT Brasil Plural.

Professor Caetano Sordi durante a reunião do Conselho Consultivo no Iphan, no Rio de Janeiro, em 11 de março de 2026.
“Trata-se de um conhecimento tradicional secular que articula cultura e ecologia no litoral sul do Brasil”, explica o coordenador do projeto de pesquisa, professor da UFSC Caetano Sordi. O processo iniciou em 2017, quando o Conselho Pastoral dos Pescadores e Pescadoras Regional Sul (CPP-Sul) enviou ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) um pedido de registro da pesca artesanal com auxílio de botos em Laguna como patrimônio imaterial do Brasil. Alguns anos depois, em 2020, a Associação Comunitária de Imbé – Braço Morto (ACIBM), solicitou auxílio técnico ao Projeto Botos da Barra, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (CECLIMAR/CLN), para realizarem pedido semelhante para pesca cooperativa no Rio Tramandaí, no Rio Grande do Sul. A patrimonialização da Pesca com Botos fundamenta-se, portanto, em demandas da sociedade civil.
A partir dessa demanda, foi elaborada uma instrução técnica a ser apresentada pelo IPHAN ao Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, principal instância colegiada do Iphan que decide questões relativas ao patrimônio brasileiro material e imaterial. Como parte da instrução técnica, foi elaborado um Dossiê coordenado pelo grupo de pesquisa CANOA, que é vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da UFSC e ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Brasil Plural (INCT-IBP/CNPq). A pesquisa também produziu, por solicitação do Iphan, um documentário sobre a prática da pesca com botos, registrando conversas com os detentores do bem cultural e o acompanhamento a interação entre botos e pescadores. A equipe de pesquisa também produziu imagens fotográficas que foram enviadas ao Iphan como parte da pesquisa. O audiovisual produzido pela pesquisa tem uma versão longa, de 70 minutos, e uma versão reduzida de 21 minutos, e foi dirigido pelos pesquisadores Rafael Devos e Caetano Sordi. As produções, junto com o dossiê, serviram de base para a decisão do Iphan. O parecer do relator, Bernardo Issa, que representa o Ministério do Meio Ambiente no Conselho Consultivo, destacou a importância do registro da pesca com botos para a interface entre patrimônio natural e cultural. “A cooperação cotidiana entre pescadores e botos demonstra que é possível uma relação produtiva que não se baseia na captura, confin
amento ou instrumentalização direta do animal, mas em comunicação, confiança e ajuste mútuo”.
O professor Caetano relembra que a proposta também se baseia em décadas de investigação científica integrada aos saberes das comunidades locais, levada a cabo por diversos grupos de pesquisa e extensão do sul do país. Nesta lista, incluem-se grupos da UFSC, como o Laboratório de Mamíferos Aquáticos (Lamaq), o Laboratório de Ecologia e Etnobotânica (ECOHE), o NAUI – Patrimônio Cultura e Dinâmicas Urbanas e o próprio CANOA. Também se destacam o Laboratório de Zoologia (LabZoo) da UDESC; o Projeto Botos do Araranguá, da UNESC; o Projeto Botos da Barra, (CECLIMAR/CLN/UFRGS); e o Projeto Gephyreus. Junto com isso também foi importante a atuação de entidades representativas dos pescadores artesanais e seu conhecimento tradicional como a Pastoral dos Pescadores e Pescadoras Regional Sul (CPP-Sul), o Movimento Boto Vivo e o Fórum da Pesca do Complexo Lagunar Sul de SC, em Laguna; o Sindicato dos Pescadores de Tramandaí; a Colônia de Pescadores de Tramandaí Z39; a Colônia de Pescadores de Imbé Z40 de Imbé e o Fórum da Pesca do Litoral Norte do Rio Grande do Sul.
A universidade participou desse processo “contribuindo na articulação entre o conhecimento científico e os saberes tradicionais, instituindo um processo de produção de conhecimento único, a partir do protagonismo dos detentores de saberes da pesca com botos”, explica o coordenador da pesquisa que deu base para a decisão do Iphan. Este aspecto, inclusive, foi destacado pela representante do MEC no Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, Damiane Daniel Silva Oliveira dos Santos, que sublinhou a importância da UFSC e outras IES federais como executoras da instrução técnica de diversos processos de reconhecimento cultural. As evidências obtidas por meio dos estudos do conhecimento tradicional, da antropologia, da história, da geografia e da biologia evolutiva demonstram que “há um bem no Sul do Brasil que carrega a memória coletiva, uma relação interespécies de cooperação singular e um modo de vida a ser salvaguardado”. Conclui o professor Caetano.

Membros do Conselho Consultivo do Iphan votam pela aprovação do registro como patrimônio nacional.




Os pesquisadores do NAUI acompanharam detentores de saberes relacionados às práticas de engenhos de farinha pelo período de 3 anos e produziram um dossiê sobre a atividade registrada em diversos municípios do litoral catarinense. A pesquisa abrangeu comunidades indígenas guaranis (Guarani Mbya), quilombolas e descendentes de açorianos e alemães. Desse levantamento e das conversas realizadas com os participantes, resultou em uma produção audiovisual que embasou o dossiê e o processo de registro. Foi produzido o documentário “Farinhar”, nas versões média e curta-metragem, além de um vasto material fotográfico. O curta-metragem, com 17 minutos, pode ser visto 




O pesquisador explica que são feitas tentativas, experimentações e até seleções para que ela cresça mais rápido, o que é uma característica almejada diferente do que ela teria na natureza. Gabriel faz essa análise a partir da sua pesquisa de campo e da literatura utilizada como as autoras Anna Tsing, Letícia Cesarino e Marianne Lien. Ao longo dos capítulos eles estuda como essa espécie de alga é definida pela biologia, a recente cadeia de produção, os projetos e as técnicas de cultivo. “Ao olhar para minha interlocutora e sua família, aponto que eles moram com essas cadeias, ou seja, moram com as fazendas marinhas e com o cultivo na frente de suas casas. Se o mercado tem seu olhar voltado para o futuro, as técnicas desenvolvidas e utilizadas pelos algicultores são uma atenção ao presente”.
O Diabetes Mellitus representa uma das emergências de saúde do Século XXI devido ao aumento acelerado da sua prevalência epidemiológica. Os novos hábitos alimentares, o sedentarismo e a obesidade aparecem nos discursos de organismos transnacionais como fatores de desenvolvimento e da performance da doença. Pela perspectiva socioantropológica, pesquisas realizadas com pessoas acometidas pela doença descrevem como os contextos sociais com o diabetes estão rodeados por representações da velhice, por reflexividades alimentares e por moralidades do consumo de açúcar. Contudo, esses referenciais foram construídos a partir da prevalência de interlocução com sujeitos mais velhos. Desse modo, a pesquisa de Eduardo Suzumura apresenta um olhar que considera perspectivas, soluções e desafios de um grupo que tem suas particularidades e não é alvo preferencial sobre o que se sabe sobre a doença. “Por esse motivo, a pesquisa desenvolvida pelo Eduardo apresenta uma contribuição inovadora e importante para a ampliação do conhecimento antropológico sobre a diabetes, ao chamar a atenção para um estrato da sociedade pouco enfocado nas políticas públicas e discussões em geral sobre a doença”, comenta o orientador.
“A ‘escrevivência’ aliada à escuta etnográfica permitiu emergir também histórias de falta de reconhecimento, de exploração racista. Arielly mostrou que muitas dessas merendeiras acabam tendo naturalizado seu sofrimento nessas cozinhas, como se fossem mais fortes, feitas para o trabalho pesado por serem negras, feitas para a cozinha por serem mulheres”, avalia o orientador da pesquisa, professo Marcos Aurélio.


, por correspondência para o Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural no endereço SEPS 702/902, Centro Empresarial Brasília 50, Bloco B, Torre Iphan, 5º Andar, Brasília-DF, CEP 70390-135, ou através do
Pesquisadores do INCT Brasil Plural estão entre os autores do livro, publicado pela EdUFRN, que reúne os trabalhos apresentados na III Reunião de Antropologia da Saúde (III RAS). O livro Saúde, Movimentos Sociais e Direitos, organizado pelas professoras Rozeli Porto, Rita Neves e Carlos Guilherme do Valle, tem por objetivo “consolidar um espaço de divulgação de produção acadêmico-científica e de discussão de pesquisas no campo da antropologia do corpo e da saúde/doença, priorizando as pesquisas realizadas junto aos movimentos sociais, muitas delas articuladas às políticas públicas vigentes”, conforme explicam os organizadores na apresentação da coletânea.


